Se existe um lugar no Brasil onde a população tem motivos para fazer manifestação contra políticos corruptos, este lugar é Brasília. Temos um longo histórico de trapaças, cambalachos e propinas. O curioso é que aqueles que no último domingo (16) foram ao ato na Esplanada dos Ministérios contra o governo,  jamais demonstraram a mínima indignação contra notórios fichas-sujas  da nossa cidade. Muito pelo contrário.

Por Augusto Madeira, presidente do PCdoB-DF

Governador por quatro vezes no Distrito Federal, Joaquim Roriz cumpriu menos de seis meses como senador eleito em 2006. Renunciou ao mandato em meio a uma série de denúncias e escândalos. Em 2010 teve que desistir da candidatura a governador temendo ser impugnado pela Justiça Eleitoral com base na lei da ficha-limpa. Sua mulher, Weslian Roriz, o substituiu e teve surpreendente votação, indo ao segundo turno. Uma semana antes da marcha do fim de semana passada, Roriz foi homenageado em grande ato. Não se registrou na ocasião nenhuma manifestação, nas ruas ou na mídia monopolista local, dos  indignados contra a corrupção.

Luis Estevão foi condenado em um dos maiores escândalos no país: a fraude na construção do Tribunal Regional do Trabalho-TRT de São Paulo. Recentemente  esteve preso. Pois bem, nada disso o impediu de transitar com desenvoltura pela política da cidade, financiar campanhas eleitorais e fazer indicações para  gabinetes de deputados distritais.

José Roberto Arruda, quando líder do PSDB no Senado, violou o painel de votação para saber como votavam seus pares na cassação do mesmo Luis Estevão, então senador pelo Distrito Federal. Um escândalo! Foi à tribuna jurar pela vida dos seus filhos que era inocente. Dias depois, diante das provas, chorou lágrimas de crocodilo, e renunciou ao mandato. Não se tem notícia que os indignados de hoje tenham feito qualquer manifestação na ocasião. Pior, em 2002, Arruda foi eleito o deputado federal mais votado no Distrito Federal.

Em 2006, Arruda elegeu-se governador e foi reincidente criminal. Montou o conhecido “mensalão do DEM”, um esquema de corrupção desbaratado a partir da denúncia do ex-delegado Durval  Barbosa, pela operação Caixa de Pandora. Visitou por alguns dias a carceragem da Polícia Federal. Expôs Brasília a uma grande vergonha.   Manifestações da turma dos atuais revoltados? Nenhuma. O cara-de-pau liderava as pesquisas  na corrida para o Buriti em 2014, quando a lei da ficha-limpa o retirou da disputa.

A luta contra a corrupção é  pretexto para este movimento conservador, retrógrado e antidemocrático que convocou as manifestações do dia 16.  Não que os atuais acusados  sejam inocentes. O PT paga por uma  pregação moralista que o fez refém deste discurso. Quem errou tem que pagar. Mas indignação seletiva é hipocrisia e manipulação da direita, que não podemos deixar de denunciar.

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