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O jornalista e ativista cultural Lelê Teles divulgou nesta segunda-feria, 28, um manifesto de artistas do Distrito Federal contra a política do silêncio, implantada na capital federal.

“Por que diabo o homo brasiliensis detesta o carnaval? Por que raios esse ser estranho odeia os festejos de rua, folguedos populares, circos, festas, sorrisos e barulho de crianças brincando debaixo do bloco?”, questiona. 

Segundo o manifesto, enquanto Brasília deu as cartas no rock nacional nos anos 80, nos anos 90 foi a periferia que mudou a cena do rap nacional. “Hoje qualquer artista que tente cantar, encenar, tocar ou recitar qualquer verso depois das dez da noite pode acabar como o Pai Francisco. Não, senhoras e senhores, eles não vão nos calar”, diz o texto. 

O documento pede união dos artistas. “Vamos fazer barulho para que ouçam a nossa voz e respeitem o nosso direito de sermos artistas. Vamos ocupar os espaços culturais abandonados e promover saraus temáticos e multiartes. Vamos enfrentá-los com o nosso talento e a força da nossa arte. Nunca nos calarão. 100 palcos é o que queremos.”

Leia o manifesto na íntegra. 

MANIFESTO DOS SEM PALCO

Do que gostam os que odeiam a arte e a cultura? Dizem que gostam de sossego. Ah, mas nas férias eles nunca vão para um rancho, ouvir o canto dos pássaros, eles vivem em Nova York, Madri, Tóquio, Rio, São Paulo, Amsterdam…

Cidades nada sossegadas.

Matéria vasta para psicólogos, antropólogos e sociólogos: por que diabos concurseiros e concursados gritam tanto pelo silêncio?

Seria por pretensa civilidade?

Mas essas criaturas vivem a tirar fotos de artistas de rua na Europa, em metrôs, cafés e praças.

Civilização é isso.

Será que estas criaturas que amam o imperturbável silêncio são as mesmas que não dão bom dia ao porteiro ou a seu vizinho no elevador? São esses mudos os mesmos que batem panelas nas varandas à noite para que os vizinhos não ouçam a chefe da nação se pronunciar em cadeia nacional?

Por que diabo o homo brasiliensis detesta o carnaval? Por que raios esse ser estranho odeia os festejos de rua, folguedos populares, circos, festas, sorrisos e barulho de crianças brincando debaixo do bloco?

Mandaram o carnaval de escolas para a Ceilândia, proibiram a construção de creches nas estrequadras; fecham-se em si como conchas.

Brasília já foi referência nacional em arte e cultura. Esse era um tempo em que bandas ensaiavam em quartos de apartamentos.

Hoje a cidade não suporta ouvir o barulho das cigarras, o que dirá de guitarras?

Os bares estão fechando porque o longínquo som do violão incomoda o cara do sexto andar do bloco F.

Num carnaval, a polícia atacou foliões com gás de pimenta e bombas de efeito moral, porque o prefeito da quadra incomodava-se com o barulho e com as pessoas que urinavam em seu jardim.

O carnaval, senhoras e senhores, festa urbana no mundo inteiro, dura apenas quatro dias, mas em Brasília isso é tempo demais, é gente alegre demais, é festa demais, por que essa gente não vai pra casa estudar para um concurso?

Agora, a polícia ataca jovens que tocavam violão na praça da 410 norte.

Quando era criança ouvia na escola a canção do Pai Francisco, aquele que entrou na roda tocando seu violão, quando veio de lá o seo delegado e levou o Pai Francisco para a prisão, e lá o espancou.

A Lei do Silêncio é uma estrondosa aberração social.

Porque ela cala a cidade, sufoca a voz de seus artistas, destrói a cadeia produtiva da cultura e cria uma cidade fantasma, uma cidade dormitório, uma cidade onde concurseiros estudam e concursados roncam.

Sem música, alguns bares estão fechando suas portas. Os teatros e casas de espetáculos estão sucateados.

No Distrito Federal não há palcos.

A caretice é tanta que até o governador não se importa em destruir a indústria cultural da cidade.

Já tivemos arte por toda a parte.

Enquanto Brasília deu as cartas no rock nacional nos anos 80, nos anos 90 foi a periferia que mudou a cena do rap nacional.

Hoje qualquer artista que tente cantar, encenar, tocar ou recitar qualquer verso depois das dez da noite pode acabar como o Pai Francisco.

Não, senhoras e senhores, eles não vão nos calar.

Artistas do DF inteiro, uni-vos.

Se você é atua, canta, dança, toca, pinta e borda e gosta de tudo isso junto e misturado, junte-se a nós no ato multiartes.

Vamos fazer barulho para que ouçam a nossa voz e respeitem o nosso direito de sermos artistas.

Vamos ocupar os espaços culturais abandonados e promover saraus temáticos e multiartes.

Vamos enfrentá-los com o nosso talento e a força da nossa arte.

Nunca nos calarão.

100 palcos é o que queremos.”

Fonte: Brasil247

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