Por Pedro de Oliveira *

A grande mídia conservadora do Brasil — que se transformou em um verdadeiro partido político de direita — e seu principal aliado, o capital financeiro, se esmeram em campanhas de descrédito da política, incentivam um golpe de Estado via impeachment com o objetivo claro de deslocar do Governo as forças progressistas que ganharam as eleições em 2002, 2006,2010 e 2014. Mais do que isso, essas forças estão interessadas em fazer retroagir as conquistas dos trabalhadores nestes últimos 13 anos.

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Na esfera econômica, aquelas mesmas forças neoliberais da mídia e das finanças trabalham dia e noite para inflar e potencializar a crise econômica do Brasil – ignorando por completo o alto nível de suas reservas internacionais no patamar de US$ 368 bilhões ( a sexta maior do mundo), o nível de investimento estrangeiro direto em torno de US$ 66 bilhões e a previsão da CEPAL para o ano de 2016, de que os produtos agrícolas têm melhores perspectivas de preço no mercado mundial, e neste sentido as possibilidades de exportação do Brasil e da Argentina são positivas, apesar da queda de preço de outras commodities, como o petróleo, o ferro e outros minérios importantes.

No plano social, o Governo Dilma vem fazendo um grande esforço para manter o nível de redução das desigualdades. Entre janeiro de 2011 e outubro de 2015 o benefício médio do programa Bolsa-Família aumentou 73%, bem acima da inflação. Cerca de 3 milhões de pessoas saíram do Bolsa Família e não retornaram e a maioria das famílias que se utilizam hoje do programa estão trabalhando, ou seja, o valor médio de R$ 167 por família é uma renda complementar do total de 13,9 milhões de famílias beneficiadas.

No mesmo sentido, o Governo respeitou as regras estabelecidas de valorização permanente do salário mínimo, aplicando um índice de reajuste de 11.70 % em relação ao último ano, passando de R$ 788 para R$880 em 2016. O valor foi calculado com base no percentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do ano retrasado mais a reposição da inflação do ano anterior pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Essa correção deve injetar R$ 57 bilhões em renda na economia em 2016. São 48,3 milhões de brasileiros com rendimento referenciado ao salário mínimo, segundo estudo do Dieese.

O economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, em artigo para a Folha de S.Paulo do dia 12/1, lembra que “o superávit comercial de 2015 “surpreendeu” por ter sido elevado, e a participação dos manufaturados, 35,6% em 2014, subiu para 38,1% do total de exportações. As empresas industriais têm uma nova oportunidade de crescer e não a perderão”, conclui Bresser.

Nenhum destes dados, entretanto, ilustrou a edição de capa deste início de ano da revista semanal inglesa The Economist – dedicada ao Brasil. Ao contrário, assim como as congêneres brasileiras, preferiu destacar o rebaixamento da nota de investimento do país pela agência Fitch americana, a demissão do agora ex-ministro Joaquim Levy (que em seguida assumiu cargo importante no FMI), o caso de corrupção na Petrobras, a ameaça de impeachment da presidenta Dilma etc.

O caso da Argentina no mesmo rumo

De forma análoga à do Brasil, os órgãos de imprensa argentinos — que antes das eleições presidenciais deviam respeito a Ley de Medios, que agora já sofre o desmonte por parte de Mauricio Macri – procuram exagerar os diagnósticos negativos das variáveis econômicas daquele país com afirmações falaciosas de como a ex-presidente Cristina Kirchner deixou o Governo.

A potencialização da crise para justificar as medidas regressivas do novo governo neoliberal na Argentina, com o desemprego em massa de funcionários públicos e maquiagem e ocultamento de redução salarial – não se trata apenas de marketing político, mas está respaldada em teorias desenvolvidas por economistas ortodoxos que defendem a tese de que “para implementar um programa de ajuste é necessário provocar um clima de crise, para culpar a herança recebida”, como explica o presidente da comissão do Banco Central argentino, Federico Sturzenegger, conhecedor e divulgador da teoria que postula a necessidade de uma crise para habilitar socialmente um ajuste.

Em seu primeiro livro sobre o assunto, publicado a quatro mãos com outro economista da Universidade de Santo Andrés, Mariano Tommasi, “The Political Economy of Reform” (1998, Massachusetts Institute of Technology, Londres, Inglaterra), trata-se da justificativa teórica do ajuste. O texto inclui uma pesquisa realizada por dois outros economistas Drazen e Grilli que chegara à seguinte conclusão: “As perdas de bem-estar associadas a distorções econômicas e crises permitem às sociedades aceitar medidas que seriam impossíveis de serem acatadas em circunstâncias menos críticas. Em outras palavras, as crises podem elevar o bem-estar apenas se são a única maneira de produzir importantes mudanças na política econômica”. Assim, a proposta é provocar uma crise para poder aplicar um ajuste com respaldo social. Será que não é a esta a mesma orientação que as forças neoliberais tentam implementar no Brasil?

* Jornalista, membro do Comitê do PCdoB de Brasília e assessor da presidência do PCdoB

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