Pablo Trapero pertence a esta nova leva de diretores argentinos que transformaram a Argentina num polo cinematográfico da América Latina. Com apenas 44 anos, ele já tem uma filmografia invejável com grandes sucessos, e sua última produção, O Clã, é a segunda maior bilheteria da história do cinema argentino, perde apenas para Relatos Selvagens

Por Mariana Serafini

Reprodução

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Pablo Trapero em meio aos atores Peter Lanzani e Guillermo Francella no festival de Veneza

O Clã – em cartaz no Brasil – conta a história sombria da família Puccio, que no final da ditadura argentina desencadeou uma onda de sequestros no país. O filme poderia ser um drama arrastado, mas foi transformado em um misto de aventura e humor com boas doses de ironia. A trilha sonora pop traz canções dos anos 80 para marcar época, mas principalmente Kinks, que abre e fecha o filme. Segundo ele, a família tinha uma relação forte com a música, era o método utilizado para abafar os gritos das vítimas, afinal, o cativeiro ficava no sótão da casa num tradicional bairro abastado de Buenos Aires. 

O caso da família Puccio abalou a Argentina quando veio à tona, em 1985, por cinco anos eles sequestraram e mantiveram em cativeiro pessoas do mesmo círculo social que frequentavam. A mistura de ficção e realidade de O Clã ao mesmo tempo que faz rir apavora, os nomes dos personagens são todos reais e a história também é muito próxima do que realmente se passou. Arquímedes Puccio, o pai, é interpretado pelo ator icônico Guillermo Francella, que contracena com Ricardo Darín em O segredo dos seus olhos. O anfitrião Puccio foi condenado à prisão perpétua e faleceu em 2005 negando todos os seus crimes. 

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Cena do filme O Clã 
 

Seu ajudante, o filho Alejandro Puccio vive o dilema de ser um astro do rúgbi que estampa as principais capas dos jornais e revistas de esportes, afinal, é a estrela do Pumas, e ao mesmo tempo o principal auxiliar Puccio nos sequestros. Na Família de cinco irmãos – três meninos e duas meninas –apenas o mais jovem não caiu na emboscada policial que levou ao fim a onda de crimes porque, por discordar das práticas, partiu para a Austrália para se dedicar aos esportes. 

Porém O Clã é só um dos excelentes filmes de Trapero. E para a crítica está longe de ser o melhor. Há quem diga que sua primeira obra El Bonaerense (Do outro lado da lei, no Brasil) seja seu grande trabalho. O filme simples, de orçamento baixo (se comparado aos que viriam depois) retrata a história de um jovem chaveiro do interior da Argentina que ao se envolver em um crime de seu chefe, de forma inocente, é obrigado a sair de sua vila e encarar a vida na região metropolitana de Buenos Aires.

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Cena de Elefante Branco 
 

Neste filme, assim como em Elefante Branco – com Ricardo Darín – eFamília Rodante, uma característica marcante é a “outra Argentina”, mostrada por Trapero. Isso porque, os rostos não são os tradicionais que se vê em obras rodadas em Buenos Aires, há uma Argentina com fortes traços indígenas e que em meio à pobreza revela grandes histórias. 

Em Elefante Branco, assim como em O Clã, a trilha sonora se destaca. A canção Las cosas que no se tocanrouba a cena de abertura da obra: “Gosto das garotas, gosto das drogas, gosto da minha guitarra…” é a letra do filme que fala sobre um projeto social da Igreja Católica em uma das favelas mais violentas de Buenos Aires.

O cinema latino-americano

Em entrevista ao portal Adoro Cinema, Pablo Trapero fala sobre o que fez da Argentina um polo cinematográfico. Segundo ele, o interesse exigente do público pelo cinema nacional fortalece e impulsiona os projetos. Mas além disso, a escola das as gerações passadas foi fundamental. “O cinema do nosso país teve muitas etapas: os anos de ouro, os anos 1950, a ‘nouvelle vague’ local dos anos 1960 com Leonardo Favio,Fernando Pino Solanas… Foram eles que construíram esse momento. Eu me sinto como um continuador da tradição histórica que passa não somente pelos realizadores, mas também pelo público, que busca os filmes no cinema. O que se vê nos últimos anos é a conclusão, ou a representação, do vínculo entre o amor do cinema pelos diretores e o amor do cinema pelo público”, afirmou. 

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Cena de El Bonaerense
 

Recentemente Trapero recebeu o prêmio Leão de Prata de melhor diretor no festival de Veneza pela obra O Clã. Segundo ele, o mundo está cada vez mais interessado pelo cinema latino-americano, e isso acontece porque a produção da região é autêntica e tem características muito marcantes. “Acredito que estes prêmios confirmam que o cinema latino-americano dos últimos anos tem muito valor, muita diversidade e profundidade, e isso se traduz em filmes muito distintos. O mesmo ocorreu em Berlim e Cannes. O cinema latino-americano tem conseguido retratar realidades distintas, que é o que se espera deste cinema. Em comum, essas produções têm o fato de serem feitas na América Latina, mas não são iguais, não falam dos mesmos temas nem são contadas da mesma maneira. Existem diretores com estilos distintos e objetivos diferentes. Os cineastas daqui têm muita curiosidade pelo cinema, o que se traduz no grande número de filmes”, explicou. 

De El Bonaerense (2002) a O Clã (2015) é possível ver a evolução de Trapero que se arrisca em comédias geniais como Família Rodante (2003), e dramas como Leonera (2008). Mas uma coisa é certa, Elefante Branco(2012) marca nitidamente uma transição da obra, que sai do viés minimalista para as grandes produções, talvez por isso os primeiros sejam mais aclamados pela crítica. 

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Do Portal Vermelho

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