O Fórum Social Mundial, em especial suas três primeiras edições, ocorridas na cidade de Porto Alegre, no Brasil em 2001, 2002 e 2003, será por muito tempo um marcador das características do princípio do século XXI e do novo milênio.

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Fórum Social Mundial tem a marca antiimperialista

Hoje, quinze anos depois, é possível observar pelo retrovisor da história (mesmo que recente) o que restou do seu aspecto social, do seu formato de fórum e do seu escopo mundial. Entender sua existência e a forma como ele se desenvolveu até aqui nos dá elementos para compreender as possibilidades e os limites da atual luta anticapitalista e anti-imperialista internacional.

Ao final dos anos 90 do século XX, uma articulação entre as agendas pós-colonial e anti-globalização neoliberal do norte e do sul global deu origem a um dos maiores inventos políticos do período fronteiriço entre o fim do século XX e o início do século XXI. Surgia o Fórum Social Mundial (FSM). Existem divergências interessantes sobre a “paternidade” do FSM[1]. Como é natural nestas situações, em especial quando há sucesso na fórmula, que alguns protagonistas disputem serem os “donos” da ideia. O fato é que três personagens, pelo menos, reivindicam o lançamento da pedra fundamental do evento, são eles Francisco Whitaker[2], Oded Grajew e Bernard Cassen[3].

Em fevereiro de 2000, Whitaker e Grajew, na companhia de suas esposas como gostam de frisar, se reuniram se reuniram em Paris com Bernard Cassen e idealizaram um encontro que fosse um contraponto ao Fórum Econômico Mundial (realizado todos os anos em Davos, na Suiça).

Obviamente que estes três senhores tiveram senso de oportunidade e realização e que na realidade há uma paternidade social e coletiva do FSM. Por mais geniais que sejam as ideias, elas são impraticáveis se não houver as bases concretas e objetivas para sua realização. O mundo estava em efervescência e os protestos anti-cúpulas do norte, aliados aos processos de resistência ao neoliberalismo no sul, foram os propulsores do encontro.

É interessante notar que, dentro de toda a polêmica sobre a paternidade, segundo Cassen, os parceiros brasileiros propuseram que o encontro fosse realizado na França, ao que este reagiu dizendo que o FSM deveria ser sediado na periferia do capitalismo, em uma cidade como Porto Alegre, então administrada por um partido de esquerda. Ausente deste encontro, o Partido dos Trabalhadores, na prática, através da sua capacidade de atuar como partido, governo, movimento sindical, social, católico e intelectual foi o ator fundamental na formação do projeto ético-político que deu origem ao FSM. É uma pena que no decorrer dos anos os partidos passaram a ser estigmatizados dentro do FSM e aqueles que queriam fazer o FSM em Paris continuaram com suas aspirações voltadas projetos financiáveis pelo norte, em detrimento das potencialidades de construções sociais com partidos e governos avançados no sul.

Por três anos seguidos, 2001, 2002 e 2003, o FSM foi realizado na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Seu crescimento foi meteórico e o número de participantes passou de 18 mil em 2001 para 100 mil em 2003. Ao final do triênio, participantes de 156 países haviam estado de algum modo envolvidos no encontro. Ao se projetar como um potente mecanismo de organização da agenda e dos valores dos lutadores de “Um outro mundo é possível”, o FSM já nasceu disputado no seu interior, tanto na forma como no conteúdo. A principal clivagem desta disputa pode ser identificada entre aqueles que defendiam o FSM como o resultado coletivo de um acúmulo de forças do campo contra-hegemônico e um espaço de formulação de iniciativas políticas; e os que defendiam uma concepção horizontalista do FSM em que as práticas políticas e a ampliação da rede de contatos dos atores configuravam, em si mesmas, a finalidade do encontro. Inicialmente esta disputa alimentou o FSM, para em seguida miná-lo.

[1] http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u65520.shtml

[2] WHITAKER, Francisco. O desafio do Fórum Social Mundial – um modo de ver. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005.

[3] CASSEN, Bernard. Tudo começou em Porto Alegre… mil fóruns sociais! São Paulo: Editora Campo da Comunicação, 2005.

* Ana Prestes é socióloga, cientista política e membro da direção nacional do PCdoB. Autora da dissertação de Mestrado (2006) “A participação política em tempos de globalização: o Fórum Social Mundial inaugura o movimento social global” e da tese de doutorado (2011) “Três Estrelas do Sul Global – O Fórum Social Mundial em Mumbai, Nairóbi e Belém”.

Publicado no Portal Vermelho

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