Na prática o Fórum Social Mundial (FSM) não vingou, de fato, como um anti-Fórum Econômico Mundial (FEM). Não foi capaz de sobreviver a si mesmo e às divergências que engendrou. No seu princípio, nos primeiros anos do novo milênio, a imprensa internacional que cobria os encontros do FEM em Davos era obrigada a falar do FSM de Porto Alegre.

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Havia uma clara contraposição de perspectivas, havia uma demanda explícita por uma cidadania cosmopolita que almejava influenciar no decurso das decisões da governança global. O FSM de então almejava forjar uma agenda universal pautada em valores tais como respeito às diferenças, preservação do meio ambiente, cultura de não violência e democratização das relações políticas, econômicas e sociais. Porto Alegre não se estabeleceu como o contraponto a Davos.

A hipótese que me parece mais verossímil para explicar o precoce ocaso do poder mundial de agenda do FSM é a clivagem interna que se estabeleceu entre seus organizadores e a “vitória” das ideias de um dos campos surgidos desta divisão. Aqueles que historicamente defenderam o FSM como apenas um espaço de encontro, “a praça” ou como uma feira de variedades, não coincidentemente eram também os que tinham mais relações com os centros financeiros mundiais e funcionavam como os maiores captadores de recursos para o encontro. Eles venderam o FSM como um varal de exposições, um local para que cada organização viesse para apresentar seus trabalhos e estabelecer conexões com outras organizações, somente. Isso era fácil vender, pois, afinal, quem compraria e financiaria um FSM com uma agenda clara, propositiva, unificadora de uma pauta anticapitalista e anti-imperialista?

Hoje, em 2016, um dos fundadores do FSM, Oded Grajew, reconhece que “o FSM está em crise” ou que “o FSM está sem foco” (1). Outro expoente do FSM desde seu princípio, o sociólogo e professor Boaventura Santos, também disse no último dia 20 em Porto Alegre: “o Fórum Social Mundial não toma posição política. Qual é a tragédia disso? Cultivamos o consenso, mas esvaziamos o fórum. Quem é que vai correr o risco de uma viagem cada vez mais cara para diferentes partes do mundo para vir apenas discutir, pois não se toma posição?”. Pois foi justamente essa a ideia que venceu a queda de braço entre “movimentistas” e “horizontalistas”(2)  dentro do processo organizativo do FSM. A ideia de um encontro que não toma posições foi ao mesmo tempo a força e o cadafalso do FSM. Foi o que possibilitou, inicialmente, uma grande aglutinação de pessoas, organizações e recursos, mas foi também o que provocou a dispersão, o esvaziamento e a desesperança com o anti-Davos.

Em artigo publicado em 2004, “Transformar a indignação em atos globais”, o sociólogo Emir Sader já denunciava o rumo perverso que os encontros do FSM iam tomando: “os Fóruns Sociais Mundiais giram sobre si mesmos, como extraordinários espaços de reunião de todos os que se opõe à globalização neoliberal, e de intercâmbio de experiências, mas sem capacidade de formular alternativas globais e partir para a construção do “outro mundo possível”. Para se ter uma ideia da autoimolação, organizações que participaram da preparação do Fórum Social Temático “15 anos do FSM” (FSMT2016) este ano, em Porto Alegre, relatam que a princípio o lema do encontro seria “balanço, desafios, perspectivas”, três palavras soltas sem nenhum significado atribuído, a que foi preciso muito esforço de alguns para conectar um sub-lema: “na luta por um outro mundo possível”. 

As principais preocupações dos “horizontalistas” para garantir a supremacia desse fórum-espaço e da ausência de tomada de posições unitárias eram: partidos não podem participar, não pode haver documento final, alianças com governos nem pensar. Deste modo, defendia-se o FSM de estar misturado ao “tumulto político” e ele vicejaria como um “fórum neutro”, em que a discussão estaria cada vez mais descasada da ação. Ocorre que a vida demonstrou o óbvio, que a energia das redes da sociedade civil e dos movimentos sociais em geral deriva justamente do fato de estarem envolvidas em lutas políticas. O motivo pelo qual o FSM foi tão excitante nos primeiros anos foi exatamente pelo seu impacto mobilizador, ao recriar e reafirmar a solidariedade contra a injustiça, contra a guerra e por um mundo que não estivesse submetido ao controle do capital. Segundo Walden Bello (3), outro expoente histórico do FSM, não fossem as posições iniciais adotadas sobre a Guerra do Iraque, a Palestina ou a OMC, o FSM seria bem menos relevante e menos inspirador para muitas redes que dele nasceram ou a ele se juntaram. 

Hoje é fácil especular sobre outras hipóteses, sobre como haveria sido um Outro Fórum Social Mundial Possível. Houvesse ele sido dirigido pelas ideias políticas e não pelo transito de capitais aportados nas principais ONGs que o organizavam e ainda organizam talvez não tivesse saído de Porto Alegre e fixaria o símbolo Porto Alegre x Davos, talvez passasse a adotar posições políticas claras em seus fechamentos e assim lutas unitárias seriam mais difundidas e mundialmente mobilizadas, talvez se abrisse para iniciativas políticas e governamentais avançadas e assim fortaleceria processos políticos e sociais antineoliberais e avançados para seus povos. Pouco restou de social, de fórum e de mundial ao FSM. No futuro algo semelhante poderá ser recriado ou uma nova invenção política que o supere nos surpreenderá. Pois, afinal, um outro mundo continua sendo possível e, mais do que nunca, necessário. 

*Ana Prestes é socióloga e cientista política. Autora da dissertação de Mestrado (2006) “A participação política em tempos de globalização: o Fórum Social Mundial inaugura o movimento social global” e da tese de doutorado (2011) “Três Estrelas do Sul Global – O Fórum Social Mundial em Mumbai, Nairóbi e Belém”.

1. http://jornalja.com.br/29049-2/
2. Adotei os termos “movimentistas” e “horizontalistas” no meu trabalho de mestrado e também no doutorado para identificar os dois campos internos que disputavam os rumos do FSM. Ambos os campos buscam, desde o princípio, hegemonizar a condução do fórum. 
3. Professor de sociologia da Universidade das Filipinas. Escreveu, entre outros, o artigo “The Forum at the Crossroads” (O Fórum na Encruzilhada) em 2007. 

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