Os ventos reacionários que pairam sobre a América do Sul trarão para Brasília, na próxima semana, dois representantes de forças políticas que tentam forjar uma restauração conservadora na região. 

Por Ana Prestes*

image

A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal brasileiro, hoje presidida pelo Senador do PSDB de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, receberá nos dias 23 e 25 de fevereiro a vice-presidente da Argentina Sra. Marta Gabriela Michetti e o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembléia Nacional da Venezuela Sr. Luís Florido, respectivamente.

Os dois ilustres visitantes sulamericanos têm em comum o fato de representarem a materialização de um revés para os projetos emancipacionistas e antineoliberais que marcaram a política de grande parte dos países da região nos últimos 15 anos. Para contragosto de alguns parlamentares brasileiros que receberão os dignatários, o Brasil segue como um dos países que resistem à ofensiva conservadora e manteve uma coalizão de centro-esquerda na chefia do Governo, liderada por Dilma. É inegável, no entanto, o caráter regressivo da atual composição do Congresso Nacional. 

A concertação internacional que hoje ataca as conquistas e os avanços de um projeto integracionista liderado por Chavez, Lula, os Kirchner, Evo, Mujica, Correa, entre outros, elegeu como alvos primeiros e prioritários Argentina, Brasil e Venezuela. Aos poucos têm ganhado a opinião pública uma narrativa que associa os atuais governos progressistas à uma imagem de sistemas corruptos e incapazes de fazerem frente à crise econômica mundial que passou da soleira da porta para dentro das casas das pessoas. 

Trazer o “exemplo” vizinho faz parte da estratégia da oposição brasileira de desgaste do Governo Dilma. E ela ocorre no mesmo período em que a alta dos preços do combustível e a proximidade do referendum revogatório na Venezuela, assim como o referendum que pode dar a Evo na Bolívia a oportunidade ou não de se candidatar novamente nas próximas eleições, elevam a temperatura política na região.

Gabriela Michetti, que vem à Brasilia no próximo dia 23, além de vice-presidente da república é presidente do senado argentino e parceira política de Macri desde 2002, quando se organizavam no partido Compromisso para el Cambio, tendo sido parlamentar na província de Buenos Aires e vice-governadora de Macri na mesma província. Em 2008 o nome do partido Compromisso para el Cambio é alterado para Propuesta Republicana (PRO) e Gabriela é eleita representando o PRO para deputada (2009), senadora (2013) e vice-presidente em 2015. Curioso destacar que o mote da campanha de Macri e Gabriela era a promoção de uma “revolução da alegria”.

No breve tempo de exercício do seu mandato, a vice-chefe de governo já ficou marcada por ter ordenado, apenas 15 dias após a posse presidencial, a imediata suspensão das transmissões do canal argentino Senado TV. De ter usado o nome de sua fundação SUMA para arrecadar doações para atingidos pelas enchentes de dezembro passado, enquanto demorou semanas para instalar um comitê de crise frente às enchentes. Além de ter se envolvido em um caso de nepotismo com a promoção de uma prima no Senado, no mesmo dia em que 2000 funcionários da câmara alta argentina foram por ela mesma dispensados. 

Já o deputado da Assembléia Nacional da Venezuela, Luis Florido, que também vem à Brasília próxima semana, no dia 25, é do partido Voluntad Popular e vem cumprindo seu papel de opositor ao Governo Maduro através da presidência da Comissão de Relações Exteriores do parlamento venezuelano. Em declaração recente, se dirigindo aos parlamentares da situação, desferiu: “vocês falam muito de soberania, mas entregaram a nossa aos russos, chineses e cubanos”, ressentindo-se, na prática, do sistemático afastamento da Venezuela da zona de influência norte-americana e a aliança estratégica com Cuba, que tirou sua população do analfabetismo e da falta de assistência pública de saúde. Além das alianças estratégicas com Rússia e China que colocaram a Venezuela em um novo patamar de intercâmbio científico, tecnológico e militar.

No mesmo ano de sua eleição para o novo parlamento, Luis Florido, como empresário do ramo da alimentação, foi acusado de fazer lobby pela privatização do bandejão da Universidade Central da Venezuela (UCV) com a finalidade de arrecadar recursos para a campanha dos candidatos da Voluntad Popular. Florido também esteve implicado em planos violentos, com intenção de desestabilizar o país no dia do julgamento do oposicionista Leopoldo Lópes, denunciados em setembro de 2015 pelo então presidente da Assembléia Nacional, Diosdado Cabello. Hoje, empoderado por um mandato na Assembleia, porta-se como um dos líderes de um antichavismo raso e oportunista dos que almejam conquistar o poder na Venezuela.

Os intentos de restauração conservadora que denunciávamos há alguns anos infelizmente estão se materializando na prática. A intensificação da crise econômica em toda a região, associada a um desgaste natural de anos seguidos do mesmo projeto na liderança do governo e um sistemático e organizado ataque da grande mídia coadunada com os interesses financeiros do capital são as características de um ambiente perfeito para o crescimento do pensamento reacionário. Na próxima semana seremos testemunhas de mais um passo na articulação destes setores que posam de democratas da vez e pretendem jogar pelos ares anos de conquistas populares.

* Ana Prestes é socióloga e cientista política. Assessora internacional na Câmara dos Deputados e membro do Comitê Central do PCdoB.

Anúncios