Foi um ato de “sororidade”, como definiu a representante do Movimento Agora é Que São Elas, no encontro de entidades de mulheres com a presidenta Dilma Rousseff, nesta quinta-feira (7), no Palácio do Planalto. Além das palavras de apoio, as mulheres abraçaram e beijaram a presidenta e as crianças entregaram rosas. Cada entidade entregou um manifesto à presidenta Dilma pela manutenção de seu mandato.

 

Presidência da República

Além das palavras de apoio, as mulheres abraçaram e beijaram a presidenta e as crianças entregaram rosas

Além das palavras de apoio, as mulheres abraçaram e beijaram a presidenta e as crianças entregaram rosas

No Manifesto Feminista Pela Sororidade e Democracia, lido por Antônia Pelegrino, representante do movimento, é explicado que sororidade “é um substantivo feminino que não existe nos dicionários brasileiros. Uma palavra que faz parte do campo semântico do feminismo, é derivada de soeur, do francês, cuja tradução é irmã. Sororidade é, portanto, o irmanar-se entre mulheres”.

“Dilma já teve câncer, já foi torturada com choques elétricos, abusada nos porões da ditadura militar, vem sendo chamada de puta nas varandas das elites, teve adesivo simulando estupro com o seu rosto estampado nos carros e ainda está de pé. Dilma ainda está de pé. Nós estamos de pé com ela, eu queria muito poder dizer isso pessoalmente”, afirmou.

As falas de apoio à Dilma foram seguidas de palavras de ordem, em que as mulheres manifestavam – aos gritos, sem que isso represente histeria, e sim coragem e força para a luta: “No meu país/Eu boto fé/ Porque ele é/ Governado por Mulher”.

No chão do salão principal do Palácio do Planalto foram estendidas bandeiras das entidades, onde as muitas crianças que acompanhavam as mães, sentaram para assistir ao ato político. O espaço foi pequeno para abrigar a plateia formada por representantes dos movimentos sociais, parlamentares e ministas.

“Mexeu com ela, mexeu conosco”

O ato teve início com a execução do Hino Nacional e a exibição de um vídeo onde várias mulheres manifestaram apoio à presidenta Dilma, agradeceram pelas políticas de promoção aos direitos das mulheres e demonstraram disposição para lutar contra os ataques à democracia e em defesa dos direitos conquistados.

“Esse governo é nosso, nós a elegemos e queremos respeito a esse mandato democrático, eleito pelo povo. Não aceitamos que a Constituição seja rasgada”, disse Creuza Maria Oliveira, da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Ela destacou que o governo de Dilma representa as trabalhadoras domésticas, em sua maioria mulheres negras, que têm a alegria de ver suas filhas nas universidades, oportunidade que não tiveram.

“Mexeu com ela, mexeu conosco”, disse Cleuza, em breve fala como aconteceu com todas as outras mulheres que concluíam suas falas puxando palavras de ordem.

A presidenta do Cebrapaz, Socorro Gomes, citou todos os movimentos que representava, como a UJS, UBM, UNE e Ubes, apresentando manifestações de respeito, apoio e carinho à presidenta Dilma, “que demonstra coerência, responsabilidade e sintonia com os valores mais elevados da sociedade, contra o ódio e a cizânia que tem sido cultivados pela elite brasileira”.

“Nós, os pacifistas do Brasil e do mundo, trazemos a mensagem de que a paz existe onde existe justiça, respeito e busca do diálogo. E no Brasil tem uma turma que não quer dialogar”, afirmou, destacando – sem citar nomes – “o parceiro desse governo que foge e começar a tramar na calada da noite contra a democracia”.

E gritou, para ser acompanhada pela plateia: “Não vai ter golpe/ Vai ter luta/ Vai ter justiça”.

Solidariedade e indignação

Alexandra da Costa Nunes, da Marcha das Margaridas, ao discursar, disse que “nós, mulheres do campo, das florestas, das cidades, estamos aqui nesse momento para trazer a nossa solidariedade e nossa indignação por cada uma das violências que vimos manifestar no nosso país nos últimos meses. Com profundo sentimento de indignação queremos repudiar a revista IstoÉ, que atenta contra cada uma de nós”, em referência à matéria publicada pela revista semanal que atribuía à presidenta Dilma traços de histeria feminina incompatível para o exercício do cargo de chefia.

A Articulação das Mulheres Brasileiras, representada por Jolúzia Batista, destacou que a matéria da IstoÉ “reforça o estereótipo negativo que recai sobre as mulheres e afronta não só a Presidência, mas a todas as mulheres que sonham com cargo de chefia”.

“Todas as mulheres são expostas ao machismo e à misoginia, que muitas vezes são concretizados em assassinatos.” E criticou “o conservadorismo que quer a luta feminista longe da legislação e a ofensiva conservadora do Congresso Nacional, que nos obriga a torturas diárias na nossa luta”, anunciando que “não vamos recuar, a direita não vai nos intimidar. Lutar não é crime, é resistir, seguiremos em luta. Não vai ter golpe”.

A representante da CUT, Junéia Martins Batista, que falou em nome das demais centrais sindicais, disse à presidenta, com palavras firmes e fortes, que “queremos lhe acalantar, se sinta abraçada por todas as mulheres”, para em seguida garantir que “você ficará até o final do seu mandato”.

A fala foi confirmada por Rita Sipahi, representante das Mulheres Anistiadas, que enfatizou a disposição de luta das mulheres em favor da democracia, do mandato de Dilma e da continuação das políticas públicas em defesa das mulheres. E destacou o “orgulho da sua capacidade de resistência, da qual nunca duvidamos”.

“Diante da campanha política de seus adversários, por não aceitarem a derrota eleitoral, através de insinuações infames que apresentam preconceito, o conjunto das mulheres brasileiras anistiadas está ao seu lado nessa luta, que é também nossa. Os seus adversários são nossos adversários, são adversários do povo brasileiro”, afirmou.

Estupro político

Márcia Tiburi, da Partida Feminista, abriu sua fala com o grito de guerra das feministas “Fora Cunha”, para avaliar que “os ataques à democracia são como um estupro político que fazem contra a presidenta Dilma os machos que comandam a oposição”. Para Tiburi, “defender a democracia é defender Dilma, que nos orgulha como representante de todas as mulheres”.

Miguelina Paiva, representante de mulheres de partidos, citando os partidos políticos de esquerda, anunciou que “não estamos surpresos com a ação da elite brasileira, branca e heterossexual, que não está gostando de ver os filhos dos trabalhadores na universidade, porque sempre teve todos os privilégios e não quer dividir”.

E, dirigindo-se à presidenta Dilma, disse que “[você] vai resistir, porque quem resistiu na ditadura por todas nós, vai resistir agora. Porque queremos que a democracia permaneça nesse país”.

Vilma Reis, Marcha das Mulheres Negras e Defensoria Pública da Bahia, confirmou: “A senhora vai chegar ao final do mandato porque ele está garantido pela nossa luta nas ruas. A essa sociedade violenta, racista, machistas e misógina, nós vamos dizer que mexeu com Dilma, mexeu com todas as mulheres brasileiras”.

Sônia Maria Coelho, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), focou sua fala nas acusações contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que além de réu na Operação Lava Jato e também apontado como “mentor” da onda conservadora no Congresso Nacional, questionando o Poder Judiciário e a Justiça brasileira sobre o destino do político.

“O lugar de Cunha é na cadeia, cadê o Judiciário e a Justiça? Nós, mulheres feministas, temos confiança nesse governo porque temos confiança na nossa luta pelo projeto de igualdade que vamos construir nesse país, apesar dessa elite racista que tenta impedir o nosso trabalho”. E, ao encerrar sua fala, puxou a palavra de ordem seguida pela plateia: “Dilma fica/ Cunha sai/ Já”.

Manter história de inclusão

Antes de começar o evento, a ministra do Desenvolvimento Social, Teresa Campelo, disse, em entrevista à imprensa, que o ato de apoio das mulheres ao governo Dilma acontece “porque as mulheres no Brasil sabem que graças à democracia podemos ter um projeto que beneficiou mulheres e crianças, que foram os principais incluídos nos projetos sociais dos últimos 13 anos”.

Para a ministra, o cenário hostil contra as mulheres vem perdendo força com políticas públicas de apoio à mulher, como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Pronaf; o Ligue 180, para denunciar as violências contra a mulher; além da Lei Maria da Penha, que completa 10 anos em agosto de 2016, e a Casa da Mulher, que reúne todos os serviços de apoio às mulheres vítimas de violência.

Apesar de todos os esforços, ela diz que ainda existe um trabalho gigantesco para fazer no país, para que as mulheres deixem de participar da economia como auxiliares, com cargos e salários iguais. “A expectativa é de que o golpe não passe a e gente mantenha a história de inclusão e libertação das mulheres”, concluiu.

De Brasília
Márcia Xavier

Anúncios