Conheci Ana quando estive em sua casa, na época em Contagem, para entrevistar sua avó, a guerreira Maria Prestes, viúva do famoso Luis Carlos Prestes. Mas fomos nos conhecer melhor ano passado, quando estive em Brasília, onde ela vive hoje com as duas filhas.

Por Cinthya Oliveira,

 

Ilustração: Vanja Freitas

 

Recentemente, Ana Prestes me procurou para contar de seu projeto que está passando por um processo de financiamento coletivo no Catarse. Trata-se de um livro infantil sobre o Dia Internacional da Mulher. Não é uma ideia bacanérrima, poder empoderar meninas e instruir meninos desde a infância?

Respondi ao recado de Ana com uma simples resposta: vamos fazer uma entrevista para Um Capuccino? Assim, segue a entrevista de Ana, a cientista política que vive a luta social desde o berço e continua a transmitir esse ideal da família Prestes para as filhas, Helena e Gabriela.

Como veio a ideia de fazer um livro infantil sobre o Dia Internacional da Mulher?

A ideia surgiu de uma observação. Minha filha, Helena, estava com 7 anos e cursava o terceiro ano do ensino fundamental quando precisou realizar um trabalho escolar sobre o Dia Internacional da Mulher. Ao ajudá-la, percebi que não havia material sobre o tema que fosse de fácil entendimento para ela e as/os colegas. Todos os materiais que encontrou, impressos ou virtuais, falavam em termos que as crianças ainda têm dificuldades para compreender, por serem muito específicos das divergências políticas ou até por serem muito cruéis, assustadores.

É sórdido dizer para uma criança que cerca de 100 mulheres foram trancadas em uma fábrica e queimadas vivas. Essa historia famosa, sobre as tecelãs queimadas em Nova Iorque, além de ser assustadora para uma criança, carece de evidências para sua comprovação. Pensei em um livro que mudasse não só os termos para tratar o tema com as crianças, mas que introduzisse outras histórias, como a das mulheres russas de Petrogrado que realizaram uma greve em 8 de março de 1917, às vésperas da revolução russa de outubro, e foram fundamentais para a construção desta data histórica.



De que forma suas filhas contribuíram para o processo?

Helena, minha filha mais velha, foi meu laboratório de observação. Se aos 7 anos ela teve dificuldade para fazer o trabalho sobre o 8 de março, no ano seguinte, já no quarto ano do fundamental, ela teve mais facilidade por causa de nossas conversas, pesquisas e debates sobre a ideia do livro. Atualmente, no quinto ano, ela foi mais uma vez escolhida para falar do tema na escola e fez as professoras se emocionarem ao recitar o poema que é a base do livro Mirela e o Dia Internacional da Mulher.

Já a Gabriela, que hoje está com 6 anos, se envolveu muito com a personagem do livro. Ela ficou muito orgulhosa quando li o texto para elas pela primeira vez e vibrou quando a personagem ganhou um nome, Mirela, e mais ainda quando nossa personagem ganhou feições das mãos da ilustradora Vanja Freitas. Gabriela queria que Mirela fosse parecida com ela! Lá em casa, a Mirela virou uma filha e irmã caçula da qual todas estamos cuidando, torcendo para que ela comece a dar seus primeiros passos e possa chegar em outras casas através do livro.

Qual é a sua visão sobre o uso que fazemos sobre o Dia Internacional da Mulher?

Infelizmente, assim como outras datas, o 8 de março caiu nas teias do esvaziamento de seu conteúdo político e passou a ser tratado de uma forma mercadológica. Isso ocorre porque o comércio quer lucrar com esta data, o que é natural no sistema que vivemos, e também porque há uma forte pressão dos setores mais conservadores da sociedade para desvincular o significado da data de tudo aquilo que signifique mais liberdade, autonomia, independência, desenvolvimento e emancipação para as mulheres. Por outro lado, no Brasil dos últimos anos, com a ascensão de uma mulher à Presidência da República e o fortalecimento de movimentos sociais que tratam de temas sensíveis à condição feminina e dos direitos à igualdade, houve um fortalecimento de uma agenda feminista mais significativa e vinculada às verdadeiras aspirações da data. Pra resumir, há um verso do nosso livro que diz:

“O 8 de março nasceu
também para ser bonito
Mas não vamos deixar as flores
esconderem o conflito”

Conte-me um pouco sobre sua história como feminista e a importância de se valorizar a luta.

Nasci em uma família com mulheres muito fortes, minha bisavó, Leocádia Prestes, liderou uma campanha internacional pela libertação de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes em tempos de ditadura e sem internet! Olga, a primeira esposa do meu avô, foi uma jovem revolucionária comunista que morreu em um campo de concentração nazista e defendeu a justeza de sua causa até o último minuto de vida. Maria Prestes, a segunda esposa de Prestes e minha avó amada, sempre foi minha grande referência de vida. Uma mulher que enfrentou a ditadura do estado novo e a ditadura militar, ao mesmo tempo em que formava uma grande família e até hoje defende os ideais libertários aos quais aderiu ainda na adolescência. Desde muito nova, me transformei em uma questionadora da condição feminina.

Na adolescência não foram poucos os conflitos familiares e sociais nos quais me envolvi por tais questionamentos. Há 20 anos tenho uma militância política e social que não se restringe à pauta feminista, mas que a abarca e da qual ela é uma das essências. É fundamental valorizar a luta das mulheres. Sem igualdade não pode haver sociedade justa.

Como o dinheiro do financiamento coletivo será investido?

Com os recursos arrecadados pela campanha no Catarse  vamos remunerar os profissionais responsáveis pela ilustração, design final do livro, edição final, impressão e a distribuição pelo país.

Fonte: Blog Um Capuccino

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