Manuela D’Ávila: “A Lava-Jato virou dirigismo político”

Deputada estadual pelo Rio Grande do Sul, Manuela D´Ávila (PCdoB) se prepara para dar um dos mais arrojados voos políticos: a candidatura ao Palácio do Planalto. Protagonista — ao lado de Guilherme Boulos (Psol) — dos protestos contra a prisão do petista Luiz Inácio Lula da Silva, Manuela afirma que espera que os atos unam a esquerda e os democratas em defesa da Constituição. A união na campanha eleitoral é outra história. “Como pré-candidata, eu almejo ser presidenta do Brasil.”
Durante a entrevista ao Correio, Manuela falou ainda sobre o cenário eleitoral — sem se comprometer ou criticar os concorrentes —, prisão em segunda instância e a operação Lava-Jato. “A operação surgiu com o bonito interesse de combater a corrupção, mas se tornou uma operação “midiatizada”, com medidas ilegais e dirigismo político. Talvez sua principal herança positiva seja o fim do sistema de financiamento privado das campanhas.” Confira os principais trechos da entrevista:

O PCdoB decidiu pela primeira vez lançar uma candidatura própria à presidência. Por quê?

Esta eleição é a possibilidade de discutirmos o futuro do Brasil e por isso queremos estar nela. O PCdoB tem propostas para enfrentar a crise que vive o país. Defendemos um projeto de desenvolvimento que retome o crescimento econômico, promova a reindustrialização, fortaleça a indústria nacional, que produza riquezas para serem distribuídas para as pessoas, garanta direitos sociais e individuais e tenha políticas públicas para as mulheres, a juventude, os negros, as periferias. Nos candidatamos porque acreditamos na reforma do Estado, para torná-lo mais democrático e capaz de induzir o desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho. Porque temos um olhar especial para as mulheres, especialmente para a relação das mulheres com o mercado de trabalho. Hoje, há uma situação inacreditavelmente injusta: por volta de 50% das mulheres que têm filhos não conseguem retornar e permanecer no emprego que tinham antes. A ausência de creches e escolas de educação infantil coloca as mulheres em desvantagem no mercado de trabalho, e transforma as avós em cuidadoras permanentes. Há pesquisas demonstrando que, em função de ter filhos, as mulheres são obrigadas a aceitar salários muito menores até que o de outras mulheres. Vamos acabar com isso. Vou tratar a diferença salarial entre homens e mulheres como uma verdadeira chaga nacional. Também defendemos que a segurança pública seja encarada como assunto central do governo. Defendo uma política pública que crie um fundo nacional de segurança pública.Também quero debater com a sociedade o problema de as nossas polícias não fazerem o ciclo completo da atuação policial (prevenção, repressão e investigações dos crimes), como ocorre em quase todos os países.

Há receio de que, com o fim do financiamento privado possa haver favorecimento de candidatos ricos, dos postulantes ligados a igrejas e até mesmo dos que têm relações clandestinas com o crime organizado. Como vê esses riscos?

Meu partido sempre defendeu financiamento público de campanhas, em contraposição ao financiamento empresarial. A proibição de financiamento por empresas é uma das nossas bandeiras para uma reforma política democrática. Como não fizemos uma reforma política de verdade, mas remendos, esta proibição não vem acompanhada de outras medidas permanentes, estruturais, que busquem combater o poderio econômico nas disputas eleitorais. De todo modo, desta vez, haverá um fundo de financiamento público para as campanhas, o que pode ajudar a controlar os gastos e — quem sabe? —reduzir os custos da eleição. Espero que isso torne menos desiguais as disputas, mas é preciso fazer uma reforma política realmente democrática, a partir de um debate com a sociedade.

O registro oficial das candidaturas ainda vai demorar. Há chances de a senhora vir a ser vice numa chapa encabeçada pelo PT?

Como pré-candidata, eu almejo ser presidenta do Brasil.

Quem será o grande herdeiro dos votos de Lula caso ele não possa ser candidato?

O dono do voto é o eleitor, e a ele cabe decidir quem é merecedor da sua confiança. Eu continuo lutando para que o ex-presidente Lula possa ser candidato, porque o julgamento político cabe aos eleitores, na urna. Se ele for excluído da disputa, será mais uma etapa do golpe que vem aniquilando a democracia brasileira desde 2016. De todo modo, a minha pré-candidatura está apresentando um programa à sociedade com a expectativa de conseguir o voto de todos os brasileiros que queiram desenvolvimento com justiça social, taxa de investimento que permita o crescimento econômico, queda dos juros de forma séria e taxa de câmbio que torne nossos produtos competitivos e uma série de outras propostas para reerguer o Brasil.

A senhora esteve muito perto do ex-presidente Lula nos momentos que antecederam à prisão dele. Sobre o que conversaram?

Lula se mostrou um homem forte e sereno.

A prisão de Lula e as manifestações de apoio ao ex-presidente podem unir as esquerdas em torno de um nome?

Espero que una a esquerda e os democratas em torno da defesa da Constituição.

Em entrevista ao Correio, Guilherme Boulos disse não descartar o apoio a Ciro Gomes em eventual segundo turno. A senhora apoiaria Ciro, ou aceitaria apoio dele?

No segundo turno, as candidaturas progressistas poderão estar unidas em torno do melhor projeto para tirar o Brasil da crise.

E com Marina, é possível pensar em futura aliança?

A unidade não se dá em torno do abstrato e, sim, em torno de ideias. Marina concordaria com o programa que defendemos?

A variedade de candidaturas de esquerdas pode favorecer a direita, especialmente Jair Bolsonaro?

A diversidade de candidaturas progressistas favorece um debate de contraposição à candidatura de Bolsonaro. É o candidato que converte em ódio o medo legítimo que a maioria da população tem diante da crise econômica, do desemprego, do desespero por não saber se haverá comida para os filhos. Mas o medo e o ódio não são propostas para sair da crise. O Brasil é maior que isso, e, com o bom senso das pessoas, nós faremos um debate sobre essas ideias retrógradas e as derrotaremos nas urnas. A solução para a crise precisa ser democrática, solidária, humanista e desenvolvimentista. Os partidos do campo progressista, por meio das fundações partidárias vinculadas ao PCdoB, PSB, PDT, PT e PSol, lançaram o documento “Unidade para Reconstruir o Brasil”, com pontos em comum que servem de plataforma para seus candidatos e poderá ser a base da união em um segundo turno. Tenho certeza de que, no segundo turno, estaremos unidos em torno da candidatura que expressar um futuro melhor para o Brasil.

Qual o peso de Joaquim Barbosa na disputa? Há perspectiva de uma aliança do PCdoB com ele em algum momento?

O que move o PCdoB são ideias programáticas. Nosso centro é o debate de programa.

O PCdoB defende no STF o fim da prisão em condenação em segunda instância. Essa sempre foi a posição do partido? O mecanismo não ajuda no combate à corrupção?

A Constituição é muito clara na sua declaração de direitos estabelecendo a presunção da inocência e a necessidade do trânsito em julgado para a prisão. A demanda pela celeridade da justiça é correta, mas não pode ser feita contra a Constituição e os direitos individuais. O combate à corrupção é fundamental. É preciso garantir a transparência absoluta no governo. Mas isso não pode se contrapor à Constituição.

Qual sua opinião sobre os resultados da Operação Lava-Jato?

A operação surgiu com o bonito interesse de combater a corrupção, mas se tornou uma operação “midiatizada”, com medidas ilegais e dirigismo político. Talvez sua principal herança positiva seja o fim do sistema de financiamento privado das campanhas.
Fonte Correio Braziliense
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